Editorial *41 : Horror Digital: Reconfigurações do humano e da realidade

O aparecimento de novos meios e dispositivos costuma gerar debate público sobre o seu potencial transformador, dando origem a entusiasmo e apreensão que se expressam em discursos que descrevem a tecnologia como mágica e ameaçadora. Nesse contexto, a estranheza causada pela disseminação dos media digitais, no final do século XX, alimentou um campo interdisciplinar de produção e reflexão que atravessou o cinema, a televisão, a literatura e a arte virtual, bem como os estudos da comunicação e a filosofia da técnica. Transversal a essas diferentes formas de expressão artística e disciplinas do conhecimento foi a mobilização do horror como conceito crítico para pensar o digital, os seus efeitos sobre o humano e a produção de realidades alienantes.

Já no início do século XXI, a digitalização consolidou redes capazes de capturar e processar a actividade humana sob a forma de dados. Com a expansão das plataformas, dos dispositivos móveis e dos sistemas algorítmicos, as tecnologias digitais passaram a mediar a vida quotidiana de modo cada vez mais profundo, intervindo nas formas de comunicação, sociabilidade, trabalho, consumo e expressão subjectiva. No entanto, esta mediação não se limita à recolha e circulação de informação: participa na produção de afectos, percepções, identidades e modos de existência. A reconfiguração daí resultante intensificou os discursos exultantes e receosos sobre a tecnologia, entre a promessa de conexão e criatividade e o receio da vigilância, da dependência e da captura da atenção. Consolida-se, assim, a ideia de que os media digitais condicionam a experiência do presente e definem os futuros passíveis de serem imaginados.

É neste enquadramento que se posiciona o presente número da Interact – Revista Online de Arte, Cultura e Tecnologia, intitulado Horror Digital: Reconfigurações do Humano e da Realidade. O horror que aqui se propõe pensar não pertence apenas ao território da ficção científica ou da especulação futurista: infiltra-se nos gestos quotidianos, nas interfaces usadas, nos algoritmos que organizam o visível, nos ecrãs onde se projectam e se constroem identidades e nas infra-estruturas invisíveis que moldam a experiência que se tem do mundo. Os contributos reunidos nesta edição mostram como o horror contemporâneo nasce menos do confronto com monstros exteriores do que da dissolução progressiva das fronteiras entre humano e tecnologia.

A entrevista com Levan Gabriadze, conduzida por Tiago Ramos, abre este percurso ao apresentar Unfriended (2014) como uma obra que reformula as convenções do cinema de terror. O desktop torna-se palco, interface e dispositivo de identificação entre espectador e personagem. O horror sobrenatural manifesta-se na relação com o dispositivo usado diariamente como confidente, arquivo e extensão cognitiva. Deste modo, o computador deixa de ser ferramenta neutra para se transformar num dispositivo de exposição, onde a atenção, a vigilância e a manipulação se entrelaçam.

Essa inquietação prolonga-se em Unscreenshottable * Habituação, estranhamento e estética do terror em Motus de Alice Sanches. Motus constrói o horror a partir da impossibilidade de estabilizar a imagem. Ao tornar inútil o gesto automático da captura de ecrã, Motus interrompe uma relação naturalizada com os media digitais. O screenshot deixa de garantir memória, prova e preservação. Aquilo que se vê existe apenas enquanto fluxo temporal e desaparece no instante em que se tenta fixá-lo. O horror surge, então, como falha das condições técnicas da visibilidade, revelando um mundo digital governado pelo ruído, pela instabilidade e pela corrosão da percepção.

O ensaio audiovisual de Rita Castanheira desloca a discussão para o domínio do avatar e da mutabilidade identitária. Em partymode101.mp4, o corpo é uma superfície moldável e continuamente performativa. A festa povoada por múltiplas versões do mesmo avatar torna-se metáfora de uma subjectividade fragmentada pelas formas de existência virtual. O corpo físico cede lugar a um fantasma digital sedutor e solitário. Aqui, o horror manifesta-se sem violência explícita, mas sob a forma de suspensão ontológica: quem se é quando o avatar se torna mais íntimo do que o próprio corpo?

Kylie Ellis Cariddi em Rituals of the electronic elsewhere investiga também a realidade do virtual ao interpretar as redes sociais como formas contemporâneas de ritual. O algoritmo ocupa o lugar da divindade invisível perante a qual os utilizadores ajustam comportamentos, horários, linguagens e performances em busca de reconhecimento. Publicar transforma-se numa oferenda – receber atenção, numa espécie de graça algorítmica. O texto revela como a lógica ritualística não desapareceu na modernidade digital, apenas mudou de forma. A ansiedade contemporânea nasce da dependência de sistemas opacos que distribuem visibilidade sem explicação. O utilizador comporta-se como alguém permanentemente julgado por uma autoridade silenciosa, tentando decifrar critérios que nunca lhe são plenamente revelados.

Com Feitiço técnico, Teresa Arega inverte um dos grandes mitos tecnológicos modernos. Em vez da máquina que adquire consciência, um corpo humano perde gradualmente aquilo que definia a sua natureza. A ingestão acidental de uma partícula mecânica desencadeia uma mutação física e afectiva que dissolve a fronteira entre organismo e técnica. A banda desenhada recusa o imaginário habitual do cyborg e propõe uma hipótese mais inquietante, a de um contágio lento, quotidiano e íntimo entre humano e máquina. Nesta obra, como ao longo do número, impõe-se a pergunta: até que ponto o humano já se encontra contaminado pelas tecnologias que determinam os seus hábitos, desejos e formas de sentir?

Carlos Alberto Carrilho conduz-nos depois à nostalgia analógica e à persistência material dos media no ensaio A experiência analógica da cassete de vídeo durante a era digital. A cassete VHS é caracterizada como um objecto retro e, ao mesmo tempo, como uma forma de resistência à transparência e à abstracção do digital contemporâneo. Filmes como The House of the Devil ou os VHS-Rips de Jess Franco mostram que o ruído, a degradação e o desgaste constituem marcas materiais de uma experiência mediada, em vez de simples falhas técnicas. O interesse renovado pelo VHS revela uma vontade de recuperar atrito, textura e corporalidade num ambiente tecnológico cada vez mais desmaterializado. O passado permanece inscrito nas imperfeições da imagem, como um fantasma que resiste à promessa de pureza digital.

Tra$h Surgery 4 Cyborg, de Femcel$wag, intensifica esse imaginário híbrido ao explorar o corpo como superfície de montagem contínua. Inspirada pela lógica fragmentária das plataformas digitais e pelo pensamento de Donna Haraway, a obra apresenta uma identidade construída por fluxos acelerados de imagens, estímulos e mutações. A unidade e a coerência do corpo dão lugar a uma imagem editável, sujeita a reconfigurações incessantes. A estética frenética do vídeo aproxima-se, deste modo, da experiência online contemporânea: uma sucessão de fragmentos que produz novas subjectividades enquanto dissolve referências estáveis.

Paulo Quadros reflecte sobre os futuros possíveis do digital através da leitura de Alien: Earth como alegoria do tecnofeudalismo. Num mundo governado por megacorporações, a tecnologia encontra-se desvinculada de qualquer responsabilidade ética. Corpos híbridos, consciências transferidas e crianças transformadas em propriedade corporativa revelam uma lógica em que o humano é reduzido a recurso explorável. O horror biotecnológico da saga Alien tem aqui uma nova dimensão política, uma vez que a ameaça já não vem apenas do xenomorfo, mas de uma forma de poder corporativo que captura a vida humana. As estruturas económicas e tecnológicas do presente, preconiza o autor, aproximam-se perigosamente do futuro distópico desta série.

João Pedro Mateus parte da aparente banalidade da partilha digital para mostrar a fragilidade do anonimato online. Here Lie The Broken Bones of LB Jefferies retrata a rede BitTorrent como um dispositivo voyeurístico, no qual hábitos de consumo revelam retratos indiscretos dos utilizadores. O identificador de um ficheiro e o endereço IP tornam-se portas de entrada para uma cartografia de comportamentos e desejos. O ensaio audiovisual recorda que cada gesto digital deixa um rasto e que a promessa de liberdade da internet convive com infra-estruturas de monitorização permanente.

Essa dimensão política da vigilância é aprofundada por Pedro Rodrigues em Fuga do Leviatã Digital: a vigilância digital na arte e a arte contra a vigilância digital, que descreve o capitalismo de vigilância como um sistema vampírico de extracção da experiência humana. Segundo o autor, as obras de Julia Scher, Kyle McDonald, Brian House e Aram Bartholl expõem os mecanismos frequentemente invisíveis do controlo digital. O quarto, a cama, a lâmpada doméstica e a circulação de dados são pontos de disputa política. Neste caso, o horror é silencioso e já está integrado nas infra-estruturas da conveniência tecnológica. A arte abre, assim, uma possibilidade crítica de interromper a naturalização dessa captura constante.

As hiperligações articuladas por Fábio Sequeira no ensaio A estética do grotesco e a hauntologia da IA propõem uma resposta estética à invisibilidade digital através da recuperação do grotesco cyberpunk. Em oposição às interfaces limpas e minimalistas da inteligência artificial contemporânea, o autor revisita um imaginário tecnológico feito de ferrugem, carne, cabos expostos e sucata industrial. Filmes de baixo orçamento dos anos 1980 e 1990 reaparecem como fantasmas de futuros não realizados, devolvendo materialidade a uma tecnologia contemporânea cada vez mais abstracta e opaca. O glitch, o ruído e a degradação tornam-se gestos de resistência estética porque lembram que toda a técnica depende de corpos, trabalho, minerais e infra-estruturas materiais.

Andjela Lazic oferece uma das reflexões mais abrangentes deste número ao investigar o “topos da factualidade” na história do horror mediado. Do romance gótico ao found footage, passando pelo horror analógico e pelo creepypasta, o ensaio explora a relação do horror com dispositivos capazes de produzir uma sensação de verdade. Cartas, diários, gravações, câmaras domésticas, VHS degradados e emissões televisivas funcionam como tecnologias de credibilidade. A familiaridade do sujeito com essas formas de mediação sustenta o efeito de verdade do horror, tornando plausível aquilo que, de outro modo, pareceria impossível.

O estudo de George Themistokleous, por sua vez, incide sobre a visão computacional e a percepção maquínica. Em You Only Look Once (YOLO), But You Have Always Already Been Data, o autor analisa Operating Table, uma instalação em que os participantes se confrontam com imagens produzidas por sistemas algorítmicos que segmentam, classificam e reorganizam os corpos. O sujeito ocupa uma posição ambígua: observa imagens enquanto é produzido, interpretado e redistribuído por sistemas de visão não humanos. O horror digital advém dessa deslocação subtil mas profunda, onde se percebe que a máquina vê de outro modo e que a identidade humana circula para além do controlo do próprio sujeito.

Carlos Natálio e Gabriel Luna encerram este percurso com uma análise de Spree (2020), de Eugene Kotlyarenko, e Cam (2018), de Daniel Goldhaber, dois filmes que retratam a construção de identidades digitais e a transformação da violência em conteúdo. A figura do doppelgänger excede a sua dimensão enquanto metáfora psicológica e afirma-se enquanto condição estrutural da existência online, marcada pela subordinação do sujeito a uma exposição e validação permanentes. 

Os contributos artísticos, ensaísticos e científicos reunidos neste número mostram que o horror digital contemporâneo tem origem na experiência concreta de habitar sistemas técnicos que moldam a percepção, a memória, a identidade e a sensibilidade. Os textos recusam, porém, visões simplistas de entusiasmo ou condenação da tecnologia, reflectindo antes sobre uma realidade em que o fascínio e o medo coexistem. Talvez seja justamente essa ambiguidade que define o presente. Vive-se rodeado de dispositivos que facilitam a comunicação, mas também fragmentam a atenção e transformam cada gesto em dados monitorizáveis. Entre glitches, avatars, algoritmos, fantasmas analógicos, corpos híbridos e imagens computacionais, os autores testemunham como o horror é um conceito frequentemente utilizado para pensar criticamente a tecnologia: não apenas o modo como opera, mas como reconfigura o humano e a realidade.

 

Filmes

Cam, Daniel Goldhaber, EUA, 2018, 94’

Spree, Eugene Kotlyarenko, EUA, 2020, 93’

The House of the Devil, Ti West, EUA, 2009, 95’

Unfriended, Levan Gabriadze, Rússia/EUA, 2014, 83’ 

Série

Alien: Earth, Noah Hawley, EUA/Tailândia, 2025, 443’

Videojogo

The Path of Motus, Michael Hicks, EUA, 2018

 

A imagem (thumbnail) deste texto editorial, a imagem do cabeçalho e o cartaz deste número são da autoria de Iris Fontes (IADE)