O horror digital absoluto alegorizado na série Alien: Earth

Introdução

A série Alien: Earth (2025), criada, escrita e produzida por Noah Hawley, também responsável por Fargo e Legion, e com produção executiva do cineasta inglês Ridley Scott, constitui uma prequela do filme inaugural da saga Alien (Scott, 1979), obra que se consolidou como um marco incontornável da ficção científica de terror. Neste enquadramento, a série propõe narrar acontecimentos situados num período anterior à narrativa original, ampliando o universo simbólico, político e filosófico da franquia ao explorar relações, conflitos e significados até então apenas insinuados.

Sob este prisma, Alien: Earth apresenta-se como um alerta distópico profundamente inquietante para a contemporaneidade, ao retratar um mundo fragmentado e governado por cinco mega-corporações tecnológicas: Weyland-Yutani, Prodigy, Lynch, Dynamic e Threshold. A narrativa assume, assim, uma função crítica, permitindo uma reflexão consistente sobre o poder crescente das chamadas Big Techs, cujo alcance transnacional desafia legislações estatais, enfraquece o papel regulador do Estado de Direito e compromete soberanias digitais e valores estruturantes das democracias activas.

A Weyland-Yutani exerce domínio sobre vastos territórios da América do Norte e do Sul, bem como sobre os planetas Marte e Saturno, investindo em explorações espaciais orientadas para a apropriação de formas de vida alienígenas hostis. A Prodigy Corporation, liderada pelo menino-prodígio Kavalier, controla regiões da Ásia, da Oceânia e partes de África, concentrando-se no desenvolvimento de inteligência artificial avançada, na criação de vida sintética e em experiências de transferência de consciência humana. A corporação Lynch detém o controlo de áreas da Rússia, apostando em tecnologias de vigilância, segurança e defesa. A Dynamic governa o Norte de África, o Médio Oriente e a Lua, actuando no sector das infra-estruturas, da energia e da gestão de recursos hídricos. Por fim, a Threshold controla as ilhas britânicas, a Escandinávia e a Europa continental.

À medida que estas corporações consolidam o seu poder, os governos nacionais entram em colapso, sucumbindo à falência dos seus projectos políticos e socio-económicos. O resultado é a dissolução efectiva dos Estados de Direito e das democracias liberais e sociais, acompanhada pela eliminação progressiva das políticas públicas fundamentais, como educação, saúde, segurança, habitação, alimentação, emprego e trabalho, e pelo desaparecimento das instituições multilaterais e dos mecanismos de cooperação internacional, incluindo a ONU, a UNESCO, a UNICEF, a OMS, a OMC e diversas organizações da sociedade civil.

As autodenominadas “Cinco”, designação atribuída às mega-corporações em Alien: Earth, repartem entre si o domínio territorial do planeta, operando como potências rivais de natureza despótica. As suas tecnologias disruptivas são instrumentalizadas como dispositivos bélicos, destinados a subjugar adversários e a expandir zonas de influência política e económica, tanto na Terra como para além dela.

Na primeira temporada, embora todas as corporações sejam referidas, o conflito central concentra-se na rivalidade entre a Weyland-Yutani e a Prodigy Corporation. Esta disputa manifesta-se sobretudo no controlo de espécimes alienígenas e na divergência ideológica quanto aos caminhos da evolução pós-humana: de um lado, o investimento em ciborgues — humanos biologicamente aprimorados por próteses tecnológicas — e, do outro, a aposta em androides sintéticos dotados de consciência humana transferida.

Apesar destas diferenças estratégicas, a série evidencia que o ser humano é reduzido a mero objecto de dominação ideológica e material. Uma vez modificados, os indivíduos deixam de pertencer a si próprios, convertendo-se em propriedade das corporações e em instrumentos ao serviço de interesses expansionistas. A narrativa constrói, assim, uma alegoria especulativa de um mundo futuro que espelha, de forma inquietante, tendências já observáveis no presente: um planeta governado por mega-corporações tecnológicas sob a liderança de CEOs beligerantes, instaurando verdadeiras tecno-monarquias de poder imperial absoluto.

Estas entidades controlam integralmente os recursos planetários e organizam a sociedade humana segundo critérios estritamente mercantis, reeditando uma forma contemporânea de feudalismo tecnológico. Paralelamente, difundem a ideologia de que o mundo se tornou mais eficiente e funcional após a dissolução dos Estados e a centralização do poder corporativo.

Deste modo, Alien: Earth projecta um futuro distópico que funciona como extrapolação crítica de um presente em construção, evidenciando como a tecnologia, quando subordinada a lógicas autoritárias e predatórias de lucro, pode reconfigurar profundamente as estruturas políticas, sociais e económicas do planeta.

Alien: Earth Courtesy of FX Productions / FX Networks, © 2025

O Contexto Distópico do Horror

Do ponto de vista filosófico, a série problematiza a tecnologia enquanto instrumento mercantilizado e potencialmente nocivo, dissociado de princípios éticos orientados para a preservação da vida e da dignidade humana e não-humana. Questionam-se, assim, os limites morais da coexistência entre diferentes formas de vida — biológicas, artificiais ou híbridas.

A narrativa desenvolve-se a partir de dois eixos interligados. Num primeiro plano, surge uma nave espacial que regressa à Terra após uma missão em espaço profundo, transportando uma carga de espécies alienígenas altamente letais. Num segundo plano, é apresentado um laboratório de investigação tecnológica avançada, dedicado ao desenvolvimento de inteligência artificial e à transferência de consciência humana para corpos andróides.

Situada no ano de 2120, apenas dois anos antes dos acontecimentos do filme Alien (1979), a série funciona como um prelúdio essencial para compreender os interesses corporativos que conduzirão a tripulação da nave USCSS Nostromo ao encontro fatal com o xenomorfo. Ao contrário dos filmes anteriores, Alien: Earth decorre integralmente na Terra, explorando conceitos filosóficos associados à modificação, imitação e reconstrução do humano através da tecnologia.

A tensão narrativa intensifica-se quando a nave USCSS Maginot, ao serviço da Weyland-Yutani, se despenha em território controlado pela Prodigy Corporation. O jovem CEO Kavalier, caracterizado por comportamentos psicopáticos e ausência de empatia, manipula um dos tripulantes para sabotar a missão, visando apropriar-se das criaturas alienígenas para fins experimentais.

A personagem central, Wendy, representa o primeiro híbrido plenamente funcional da humanidade: um corpo androide adulto dotado da consciência transferida de uma criança. Este procedimento gera conflitos psíquicos profundos, resultantes da dissonância entre um corpo fisicamente amadurecido e uma subjectividade infantil, ingénua e emocionalmente instável.

Posteriormente, outras crianças são submetidas ao mesmo processo, convertendo-se em propriedade exclusiva da Prodigy Corporation e sendo treinadas como soldados. A série retrata, assim, uma guerra corporativa não declarada, travada pelo controlo das criaturas alienígenas enquanto potenciais armas tecno-biológicas.

Pierre Lévy (1999) conceptualiza este cenário como expressão da tecnobarbárie, entendendo a tecnologia como um pharmakon: simultaneamente remédio e veneno. Quando utilizada de forma desumanizada, a tecnologia promove a alienação social, a perda de consciência crítica e a submissão dos indivíduos a lógicas de dominação. Neste contexto, a educação transformadora surge como via privilegiada de emancipação humana.

O Horror Tecnológico: Meio Ético ou Fim Totalitário

A série aprofunda o debate sobre o papel político da tecnologia, evidenciando o seu potencial de controlo, opressão e aniquilação da vida. Este questionamento confronta a ideologia da neutralidade tecnológica, sublinhando que toda a tecnologia transporta, desde a sua génese, intenções, valores e projectos de poder.

Umberto Eco (1998) observa que os regimes fascistas do século XX manifestavam um fascínio particular pela tecnologia, enquanto os tradicionalistas a rejeitavam por a considerarem uma ameaça aos valores espirituais. Já Yanis Varoufakis (2025) sustenta que o capitalismo entrou numa fase terminal, dando lugar ao que denomina “tecnofeudalismo”, caracterizado pela privatização da internet pelas Big Techs e pela emergência do capital-nuvem. Neste novo regime, os CEOs das grandes plataformas digitais assumem o papel de senhores feudais, enquanto a maioria da população se converte em servidão digital, fornecendo trabalho, dados e atenção sem retorno económico proporcional.

Esta lógica aproxima-se do conceito de Ur-Fascismo ou Fascismo Eterno, proposto por Eco (1998), entendido como uma ideologia arcaica de dominação territorial assente na violência, na glorificação da morte e na rejeição da reflexão crítica. A exaltação da acção pura, dissociada do pensamento reflexivo, constitui um dos seus pilares estruturais.

Kavalier personifica exemplarmente esta lógica. Ainda criança, utiliza um androide indistinguível de um ser humano para assassinar os próprios pais, sem demonstrar qualquer vestígio de remorso. O seu isolamento numa ilha-laboratório remete simbolicamente para uma fusão entre a Terra do Nunca e a ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells, onde experiências científicas geram criaturas híbridas que acabam por escapar ao controlo humano.

O xenomorfo da saga Alien representa, neste contexto, a metáfora máxima do incontrolável. Como sugere Jean Baudrillard (2008), o “Outro” radical é inassimilável, escapando às categorias da linguagem e da compreensão humanas. Qualquer tentativa de domínio absoluto revela-se, assim, ilusória.

Alien: Earth Courtesy of FX Productions / FX Networks, © 2025


Entre o Horror e o Terror Digital


Reyes e Blake (2015) definem o horror digital como uma mediação tecnológica do medo extremo, amplificada por dispositivos de vigilância e controlo da vida quotidiana. Este horror alimenta-se da precarização neoliberal da existência e da normalização da indiferença perante o sofrimento e a morte.

Enquanto o horror provoca repulsa imediata face ao grotesco e ao violento, o terror constrói-se gradualmente através da antecipação psicológica do desconhecido. Alien: Earth funde estas duas dimensões, introduzindo novas criaturas alienígenas que expandem o imaginário aterrador da franquia. Além do xenomorfo clássico, surgem espécies como o Ocellus, um parasita ocular capaz de controlar biologicamente as suas vítimas; os Space Ticks, parasitas hematófagos que drenam lentamente o sangue; a Orquídea (Drosera Plumbicare), uma entidade vegetal predadora que dissolve as suas presas; e a Mosca, criatura metálica que expele ácido corrosivo.

Estas entidades exobiológicas, embora inspiradas em organismos terrestres, suscitam debates éticos sobre os limites da bioengenharia e da manipulação genética. Margaret Atwood (2012) prefere, por isso, a designação de ficção especulativa, sublinhando a proximidade entre estas narrativas e tendências reais susceptíveis de conduzir tanto a futuros utópicos como distópicos.

Para Gilles Deleuze (1998), mesmo o não-sentido constitui uma forma de sentido emergente, resultante de acontecimentos disruptivos que reconfiguram a percepção da realidade. Assim, Alien: Earth convoca questões éticas fundamentais sobre o destino de formas de vida não-humanas, a possibilidade de empatia e o reconhecimento da dignidade de seres conscientes, mesmo quando se revelam hostis, incompreensíveis ou ameaçadores.


Referências

Aldana Reyes, X., & Blake, L. (Eds.). (2015). Digital horror: Haunted technologies, network panic and the found footage phenomenon. I.B. Tauris. 

Atwood, M. (2012). In Other Worlds: SF and the Human Imagination. New York: Anchor Books, 1st Edition.

Baudrillard, J., & Guillaume, M. (2008). Radical alterity (A. Hodges, Trad.). Semiotext(e).

Baudrillard, J. (1999). Tela total: Mito-ironias do virtual e da imagem. Editora Sulina.

Baudrillard, J. (1991). Simulacros e simulação. Relógio d’Água.

Deleuze, G. (1998). Lógica do sentido (L. R. S. Fortes, Trad.). Perspectiva. (Original publicado em 1969).

Deleuze, G., & Guattari, F. (2010). O Anti-Édipo: Capitalismo e esquizofrenia 1 (L. B. L. Orlandi, Trad.). Editora 34.

Deleuze, G., & Guattari, F. (1995). Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia 2 (A. Guerra Neto & C. P. Moraes, Trad.). Editora 34. 

Eco, U. (1998). Cinco escritos morais (E. Aguiar, Trad.). Record.

Haysom, S. (2025, August 19). ‘Alien: Earth’: What are the 5 alien species onboard the ship? Mashable. https://mashable.com/article/alien-earth-species. 

Lévy, P. (1999). Cibercultura (C. I. da Costa, Trad.; 3ª ed.). Editora 34. 

Omelete. (2025, 12 de agosto). Alien: Earth é bom? Veja a crítica da série do Disney+ [Crítica]. Omelete. https://www.omelete.com.br/series-tv/criticas/alien-earth-e-bom-serie-disney-plus 

Shmuel. (2025, August 20). Alien: Earth: What you need to know about the five corporations. Esquire. https://www.esquire.com/uk/culture/tv/a65857585/alien-earth-five-corporations-explained/.

Varoufakis, Y. (2025). Tecnofeudalismo: O que matou o capitalismo (E. N. Vieira, Trad.). Planeta do Brasil.

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