Anamnese e Hipomnese — Crise e Técnica

Anamnese e Hipomnese, Ilustração de Diogo Bessa, 2023


Em 2009, o filósofo francês Bernard Stiegler dava-nos conta, no seu texto “Anamnese e Hipomnese”, do retorno de um importante receio no seio da filosofia, aberto há vinte e cinco séculos por Platão, relativamente aos perigos da memória técnica e dos processos hipomnésicos — transferência da memória para suportes externos — para a sociedade e para a filosofia, doravante ainda mais permeáveis à manipulação, ao controlo e aos sofismos (pithanon), que privariam o ser humano da sua própria essência (desindividuação), do seu “valor-viver” (2009:15), da sua liberdade.

Contudo, Stiegler, longe dos temores e do trauma que, segundo este, perpassam a filosofia desde os princípios da metafísica, ao invés da recusa ou da desvalorização da técnica, ou mais concretamente, de uma memória técnica — os hypomnemata e a hypomnesis — enquanto fator de perda de saber, por oposição a uma outra memória interna e benigna, vai propor um olhar que coloque a questão técnica no seio daquilo que torna o ser humano enquanto tal, e que abrace a ambivalência da própria história da evolução técnica e do seu processo de gramatização (controle), lutando por uma política de memória capaz de nos devolver o tempo necessário para nos ajustarmos e tomarmos as rédeas deste novo estádio da tecnologia.

Anamnese e Hipomnese — A Breve História de um Recalcamento

Cerca de 370 a.c., Platão viria a traçar no Diálogo Fedro uma série de oposições entre aquilo que é a anamnese — a memória viva, interior, filosófica — e a hipomnese — a memória morta, exterior, sofistica. Mais tarde, em De la Grammatologie (1967), Derrida procurará rejeitar essas mesmas oposições entre as duas formas de memória, explicando que não há uma interioridade que preceda a exteriorização, uma vez que essa mesma exteriorização constitui também a primeira enquanto tal. Segundo Stiegler, ainda na sua crítica à metafísica, Derrida procurará antes recorrer à diferencia — a capacidade de pensar processualmente como oposições dinâmicas, o que primeiro se instala como estático (ser, essência memória) — e valorizar a lógica do Suplemento na marca escrita, simbólica — os hypomnematon, suportes textuais mnemotécnicos — que, longe de unicamente afrontarem a benigna episteme anamnesica e a dialética platónica, vão ser também responsáveis por constituir a memória viva como sábia, em tornar a memória em saber e pensamento — repetível, “iterável” (2009:11), transmissível.

À semelhança de Derrida, Stiegler também procurou ultrapassar as oposições platónicas que estruturalmente subsistiram na filosofia com a oposição entre hypomnesis e anamnesis, pensando a própria memória como um processo de gramatização (extensão da capacidade de poder e controlo além dos limites humanos primeiros), onde ambas se encontram em permanente composição.

Stiegler vai também procurar mostrar que, além da capacidade que o suplemento/marca (hipomnésicos) tem de tornar a memória em saber, a própria Filosofia, enquanto amor pelo “saber perdido” (2009:18-19) — o seu objeto de desejo (philein, eros) — necessita desse mesmo artifício do lado técnico da memória que parece rejeitar nos primórdios da metafísica. Isto significa que, para manter o seu objeto de desejo, a filosofia precisa tanto da dialética, que induz a reminiscência ou produz a relembrança, como dos artifícios da hypomnesis tomados enquanto corpo técnico na “própria queda” (2009:19) — de uma Ménom, a quem caiba perder/esquecer — e que permitem o cumprimento da anamnese, redimindo a ideia do saber e da verdade originalmente perdidos (episteme / aletheia), e permitindo à filosofia manter a demanda pelo objeto de desejo (philein / philia) intacta. Saber, desejo e técnica: eis o nó problemático da filosofia enquanto metafísica.

Contudo, essa exteriorização da memória, em que consiste a hipomnese, tem uma natureza ambivalente, já que se, por um lado, permite que o ser humano não cesse de alargar o seu poder e saber, estendendo-os além dele mesmo, por outro, permite que estes o ultrapassem, ameaçando comprometer as organizações psíquicas e sociais humanas.

Segundo Stiegler vão ser, de resto, tanto os sofistas e a utilização dos hypomnemata e da hypomnesis para a produção pithanon (persuasão e as crenças falsas) como a guerra civil em Atenas, ou mesmo, a relação incestuosa entre o saber, o desejo e a técnica, que acabarão por levar a filosofia a um recalcamento da técnica e por tornar a recém-criada metafisica numa reação contra a crise instaurada.

É precisamente por essa negligência histórica face à técnica que ficamos expostos aos seus perigos, limitados a visões que partilham dessa negligência, ignorando onde reside a raiz daquilo que hoje enfrentamos, ou que redundam catastrofismos distópicos sobre o futuro que se avizinha. Stiegler, pelo contrário, crê ser necessário traçar um “novo horizonte filosófico onde a tecnicidade esteja no seio da transindividuação” (2009: 28) — daquilo que nos torna unos, das questões da ontologia do ser —, caminho esse ao qual não nos devemos deter, mas ultrapassar, na condição de se fazer da metafísica “uma história técnica do suplemento concebido como retenção terciária no processo de individuação de uma organologia geral” (ibid.).

Epifilogénese, Transindividuação e Gramatização — a Técnica no Seio da Memória e da Filosofia

Para chegar a essa noção de uma organologia geral — uma teoria que articule órgãos corporais (biológicos), artificiais (técnicos) e sociais (coletivos) — Stiegler vai começar por escrutinar a importância da técnica na memória como aquilo que permite ao Ser Humano sair da simples vida “bio-lógica” e passar a uma vida como “ex-istência”, como desejo e saber (2009: 20); reposicionar o papel da memória técnica enquanto derradeiro mediador dos diversos processos de individuação psíquica e coletiva, que permitem definição, distinção e articulação entre o indivíduo e a sociedade e vice-versa; e por fim traçar a história tanto da técnica como da memória enquanto processo de gramatização — a atualização, discretização, estabilização e controlo dos saberes/memória, doravante indissociáveis da psique e do coletivo humano.

Segundo Stiegler, o ser humano trava a luta pela vida através de órgãos artificiais (técnica), e é, através desse mesmo processo de exteriorização da técnica que vai acrescentar uma terceira camada de memória às restantes, anteriormente definidas por Weismann – a memória da espécie (genoma/germen) e a memória do indivíduo (somática/sistema nervoso central) – a camada da memória técnica. Por sua vez, é esta terceira camada que liga e é produto da junção entre experiência individual (epigenética), correspondente à memória somática, e os suportes filogenéticos da acumulação dos saberes (o phylium cultural intergeracional), equivalentes à memória genética, que constitui a memória humana como epifilogenética.

Por sua vez, essa dimensão epifilogénica da memória está relacionada com a sua natureza intrinsecamente artificial (envolve uma “adopção”, uma seleção) (2009: 22), implicando com isso que, tanto as individuações dos diferentes sujeitos (memória psíquica), como a dos diferentes coletivos humanos (memória do grupo), não seja estática, estando num permanente processo, onde ambos, Eu e Nós, não só são interdependentes nos processos de individuação, como esses mesmos processos são passíveis de ser agenciáveis pela técnica, num processo que Stiegler designa por transindividuação. A esse processo de individuação do psíquico (indivíduo) e do coletivo (sociedade) vai juntar-se a evolução técnica e os seus diferentes estádios de gramatização.

A implicação da possibilidade de escolha, permitida pelo meio pré-individual (onde residem os fundos pré-individuais), vai então estar dependente de “dispositivos retentivos” (2009: 23) pelos quais esse mesmo meio mnésico se forma na dupla aceção da palavra retentivo: meios que são tanto capazes de guardar, mas também de selecionar, e obstruir, parte da memória/saber. A individuação do Eu e do Nós também contribui para o processo de individuação do próprio meio técnico, que, a cada novo estágio da gramatização, vai transformar a memória/saber técnico, psíquico e coletivo, como o atesta Foucault (apud Stiegler, 2009: 23) quando demonstra como a invenção da espingarda (técnico) vai contribuir para a constituição de uma nova sociedade disciplinar (psíquico e coletivo).

A Crise do Capitalismo Cognitivo e a Industrialização da Memória — A Necessidade de uma Nova Filosofia Política Ortotética

Se em tempos Platão temeu pelos perigos que a exteriorização da memória e a técnica podiam infligir à sociedade ateniense, esses mesmos sofistas e o seu pithanon “capaz de curto-circuitar a amnesis, que é a transindividuação”, estes parecem empalidecer face à “verdadeira gramatização do próprio desejo” operada pelo inquietante “capitalismo cognitivo” (Ibid: 32) contemporâneo e a sua industrialização da memória.

Face a essa mesma capacidade de sobredeterminar aspetos da vida humana, num primeiro momento, ligados ao saber-fazer (a industrialização que proletariza os sujeitos), e, num segundo momento, ao saber-viver (“hiper-industrialização” que torna os sujeitos em consumidores), é importante, mais do que voltar a Marx e à questão de saber quem se apropria e controla os meios de produção, voltar a Fedro (370 a.c.) para, numa releitura de O Capital (1867), inquirir quem se apropria e controla os próprios processos de transindividuação que permitem gramatizar as meta-transformações socioeconómicas e sociopolíticas.

Urge igualmente, repensar e reinventar a técnica e o potencial dos hypomnemata digitais contemporâneos ao serviço do otium e da transindividuação, capazes de conquistar espaço à contaminação do negotioum, sob o risco de estarmos condenados à desindividuação, a “arruinar a psique e precipitá-la em direcção à psicose” (2009: 29).

Referências Bibliográficas

Derrida, J. (1967). De la Grammatologie. Paris: Minuit.
Platão (2022). Fedro. Lisboa: Edições 70.
Stiegler, B. (2009). Anamnese e Hipomnese: Platão, primeiro pensador do proletariado. Trad. Luís Lima. In Mourão & Babo (org). Revista de Comunicação e Linguagens, 40, Outubro, Lisboa,  p. 11.