“Feitiço técnico” é um ensaio ficcionado em banda desenhada experimental que acompanha uma personagem que engole, por acidente, uma partícula de um aparelho de aviação.
Em vez do lugar-comum da senciência dos objectos tecnológicos, propõe-se aqui o seu inverso: uma entidade humana que começa a perder o que compunha a sua natureza. Assiste-se ao aparecimento de um novo corpo, mas não o do ciborgue de que se está à espera.
O horror e o desejo associados à hipótese do surgimento de máquinas sencientes são assuntos presentes quando se quer pensar a natureza humana e o antropocentrismo. Essas reacções atravessam a história da tecnologia e disseminam-se por diversos campos do pensamento: da filosofia da técnica, onde a obra de Gilbert Simondon ocupa um lugar central, ao imaginário mediático, com Metropolis (1927) de Fritz Lang a constituir um exemplo paradigmático.
Contudo, o que se pensa neste ensaio é precisamente o inverso. O contacto com a tecnologia ocorre por meio da ingestão de um corpo mecânico estranho. A mutação que se desencadeia opera simultaneamente num plano físico e afectivo. Estará esta transformação distante das formas de contágio a que se está sujeito diariamente na dimensão meta?
Referências
Simondon, G. (1958). Du mode d’existence des objets techniques. Paris, France: Aubier-Montaigne.
Lang, F. (Realizador). (1927). Metrópolis. Universum Film AG.

