Entre-Conexões Corporealizadas: Senses Places @ Vivarium 2019

Cartaz do Vivarium Festival 2019 com foto de Second Life por Liz Solo, Senses Places @ OSCC 2016

Escrevo com esta última instância do projecto artístico-tecnológico transdisciplinar de longa duração, Senses Places / Lugares Sentidos, na 2ª edição do Vivarium Festival, nos Maus Hábitos, Porto a 29 Março de 2019. Inclui o Workshop Enraizar para Virtualizar e a Performance Participativa em Realidade Mista, assim como conexões e encontros, com xs colaboradorxs no Odyssey Contemporary Art and Performance Simulator (no Second Life® MUVE) e redes sociais, e a equipa artística e de produção do festival, anteriores e posteriores ao evento. Como criação colaborativa internacional processual e multifacetada, integra contribuições dxs colaboradorxs em diversos formatos de hiperligações.

 

Introdução/Enquadramento
Abordo os principais aspectos desenvolvidos pela abordagem dança somática-tecnológica / soma-tech dance da Investigação como Prática Artística (Practice as Research) (Nelson, 2013; Midgelow, 2019), na emergência de métodos de corporealização e inter-corporealização mediada via interfaces pessoa-máquina (ou IHM, IHC), em complexificação progressiva. Alinhada por princípios elaborados a partir de visão artística-tecnológica iniciada em 2009 (Valverde, Cochrane, 2009), a experiência transmedial acontece entre colaboradorxs em conexão corporealizada expandida físico-virtual , numa articulação entre diversos fusos horários, plataformas e sistemas interactivos em rede web.
Marianne Baillot, directora artística do Vivarium Festival, iniciou o contacto por email em Junho 2017 com convite para participar na 1ª edição em 2018, quando ainda me encontrava no Brasil. O convite interessou-me pela temática do festival e, principalmente, pela maneira particular com que focou o meu trabalho, citando as corporealidades pós-humanas num aspecto crucial da abordagem dança somática-tecnológica à experiência e prática estético-artística, que situou numa publicação de autor (Valverde, 2013). Aqui o excerto do email. Lamentavelmente, nessa 1ª edição não foi possível participar pois o festival não teve meios para custear a viagem do Brasil. Quando no ano seguinte Baillot voltou a contactar não hesitei em aceitar o convite.
A afinidade das temáticas do Vivarium com os propósitos do Senses Places, na génese do paradigma corporealidades pós-humanas, prende-se essencialmente com as características, lúdica, colaborativa e sensível das propostas. Na intenção de re-humanização da Interacção Humano-Máquina e Human-Centered Interfaces (HCI) numa concepção de corporealidade que enfatiza o enquadramento corpo-realidade como constituinte subjectivo inerente e mutável (Foster, 1995) e alicerçando e expandindo esse paradigma analógico das corporealidades físicas como alicerce do paradigma cibernético (Hayles, 1999) onde a máquina coopera sempre com os humanos (Wiener, 1950). Fiquei pois grata pelo reconhecimento da contribuição do Senses Places na emergência de modos expansivos de inter-corporealização da interactividade inteligente e sensível – Background do Projecto Senses Places e Estado da Arte-Processo.

 

Senses Places @ Vivarium 2019
Colaboração artística-científica-tecnológica transdisciplinar – Processo artístico-tecnológico.
Durante o processo de produção anterior ao festival estabeleci contacto com os membros da equipa artística e de produção do festival, após o envio da Ficha de Produção e Rider Técnico, dada a complexidade tecnológica do projecto. Com João Teixeira (director técnico) tratámos dos detalhes para a realização de vídeo stream pelo canal YouTube Maus Hábitos. Em ligação Skype com Baillot tive a possibilidade de ver a “Sala de espectáculos” onde iria ocorrer o evento, que ajudou a criar a Maquete da instalação dos equipamentos.

2 Desenho de Maquete do Senses Places @ Vivarium2019, Maus Hábitos, Sala de Espectáculos ©Valverde

 

Os principais aspectos da colaboração foram, a continuação de Liz Solo, Kikas Babenco, SaveMe Oh, e Clara Gomes aka Lux Nix e, particularmente, o retorno de Kae Ishimoto aka Junkaeko após alguns anos ausente. Infelizmente houve indisponibilidade por Todd Cochrane aka Toodles Lightworker, Isa Seppi aka Janji Rugani, Ana Moura aka Anisabel, Yukihiko Yochida aka Island Habana, e Joana Martins aka Fonteyn. Ainda que indisponível para se juntar a nós, Martins apoiou a reactivação da interface webcam pessoa-avatar (corpo inteiro). SaveMe Oh e Lux Nix estiveram em encontros prévios mas não conseguiram estar presentes no evento. Também continuou a colaboração dos músicos Jean Souza, Alexia Dias, Andrei Junquilho e Oripes de Salvador da Bahia, presentes na instância anterior a 29 Janeiro 2018 nessa cidade, e planeando conexão Skype.
Então, com as colaboradoras disponíveis no Canadá, Portugal, Holanda, e Nova Iorque, combinámos e efectuámos encontros de trabalho no lugar virtual do projecto, no Odyssey Simulators. Aí testámos a corporealização interactiva através das interfaces webcam pessoa-avatar e telemática pessoa-imagem (vídeo stream). Calendarizámos também intervenções por Babenco, Nix e Solo, durante o Workshop, e actualização do Score para a Performance participativa em realidade mista.

 

Procedimentos de Produção
Activação de Interfaces Pessoa-Máquina:
– Interface pessoa-computador GUI e Second Life® (SL®) – Actualização do Viewer Firestorm Animesh com apoio de Oh. Utilização da interface gráfica do utilizador (GUI) ecrã, rato, teclado e tapete na interacção com a avatar e espaço com a câmara virtual.

– Interface webcam pessoa-avatar (corpo inteiro) (Martins; Cochrane) – Actualização de link e teste da interface com apoio de Martins.
– Interface telemática pessoa-imagem – criação de canal de vídeo stream no Twitch.tv com apoio da Liz Solo. Perca recente de quatro canais Livestream, plataforma gratuita para esta interface, arquivo e visualização de streams efectuados ao longo dos anos.

Encontros em Realidade Mista Pré-Vivarium
Março 14, 2019 Butler2 Evelyn, Kikas Babenco, Liz Solo, Junkaeko, e Lux Nix
Reactivação e prática somática com interface webcam pessoa-avatar. Selecção dos objectos virtuais programados HUDS (Heads-Up Display), IA da interface, os últimos usados com animações motion capture (criadas no Lab Mocap da UFBA. Tentativa de adição de novo HUD com animações mocap de Dança Kuduro (por Alvaro Di Amaro) e Flamenco (por Presentation Gonçalez) e retomar a interface anterior de meio-corpo com as doze poses dos Buddhas avatares, por Babenco a partir de fotos das doze esculturas japonesas de guerreiros avatares propostas por Yoshida/Makime.
Encontrámos vários problemas como a lentidão dos computadores utilizados por mim, Ishimoto e Gomes, e a instabilidade da ligação vídeo inworld por Solo. Apoio na retoma de Ishimoto ao projecto nas interfaces GUI-SL®, com avatar Junkaeko, ambiente virtual e interface webcam pessoa-avatar. Problema com seu MacBook Air não apropriado para estas plataformas pesadas. Combinámos outras intervenções a ocorrer durante o workshop.

Vídeo excerto: work-in-progress Pré-Vivarium, Senses Places, Odyssey Simulators (SL) (March 14, 2019)

 

Março 20, 2019 Butler2 Evelyn, Kikas Babenco, Liz Solo
Liz Solo trouxe a experiência com intervenção ligada ao seu recente projecto hybrid:fusion, que incorpora animais dançando numa metamorfose da sua entidade virtual antropomórfica. Foi interessante e realmente diferente interagir com a minha avatar antropomórfica (Evelyn) e esta interagir com o avatar animal elefante (Liz Solo) pela interface webcam pessoa-avatar. Na certa aleatoriedade da resposta aos meus movimentos, os movimentos de queda e levantar da Evelyn, por exemplo, tomaram outro sentido quando ia para baixo do elefante e saía debaixo dele.

Vídeo Excerto: work-in-progress com Babenco, Evelyn, Solo/Elefante, Senses Places@Odyssey (SL) © Valverde

 

Março 8-24 Butler2 Evelyn, SaveMe Oh
SaveMe Oh esteve presente virtualmente em encontros prévios com proposta de intervenção com as suas dolls/bonecas, desmultiplicações da sua avatar, sua mais recente vertente em Wearable Art. Isto para além da criação inédita de ambientes virtuais mutáveis vestindo objectos gráficos, imagens e som, e em interação com movimentações de avatares. A ideia foi envolver as suas clones, movendo-as com animações do projecto e, se possível, ligadas à interface webcam pessoa-avatar, onde uma pessoa moveria diversxs avatares sem uníssono, dada a aleatoriedade de resposta da interface com animações activadas por cada avatar. Visitei a sua ilha com as bonecas todas alinhadas como que preparadas para diferentes funções. Destacadas estavam duas bonecas compostas por três bonecas coladas que se moviam em relação à Evelyn.

Vídeo excerto: work-in-progress entre Butler2 Evelyn e SaveMe Oh com suas bonecas/clones na sua ilha no SL.

 

Março 28-29, 2019 Produção Técnica – Equipa Saco Azul, Sala de Espectáculos, Maus Hábitos
– Instalação de Viewer Firestorm /SL e activação de interface webcam pessoa-avatar com wifi;
– Instalação dos três projectores vídeo;
– Instalação dos três ecrãs suspensos;
– Instalação de câmara para vídeo stream;
– Teste de áudio com microfone (para o vídeo stream);
– Instalação de projector de luz de presença para visibilidade por interface webcam;
– Instalação de máquina de fumo, projectores de cor, e ventoinha.

 

Problemas Técnicos
MacBook Pro – Dificuldade com interface GUI e SL®;
MacBook Air – Falha na activação de segundo video stream por twicht.tv a partir do SL®;
– 3 Projectores vídeo – Falha de 1 lâmpada; Discrepância entre qualidade de imagem;
– Interface biométrica pessoa-ambiente – Impossibilidade de activar por falta de programador. Contámos pôr a funcionar os equipamentos de output (máquina de fumo, projectores luz cor, e ventoínha) para alteração de aspectos do ambiente (vento, fumo, cor);
– Vídeo stream Maus Hábitos – Falha no áudio; Falha Vídeo stream Inworld (SL®)
Second Life® – Lentidão ou lag dificultou funcionamento do ambiente virtual para todas as colaboradoras, utilizando computadores Windows ou Machintosh, à excepção de Babenco;

 

29 Março 2019 Senses Places – Mixed Reality Participatory Performance
10-16h Workshop Enraizar para Virtualizar por Isabel Valverde / Intervenção por Kikas Babenco
17-18h Performance Participativa em Realidade Mista
Lugar físico: Sala de Espectáculos, Maus Hábitos, Porto, Portugal
Lugar virtual: Senses Places, Odyssey Simulators (Second Life®)

Mais informação Senses Places @ Vivarium 2019
Website do Vivarium Festival: Workshop Enraizar para Virtualizar, Performance Participativa em Realidade Mista
– Evento no Facebook Maus Hábitos
– Website do Senses Places

 

Março 29, 10-13h Workshop Enraizar para Virtualizar Parte #1

Canal YouTube Maus Hábitos

Graças ao esforço de Baillot com a criação do formulário de Inscrição online e contactos posteriores, o workshop teve o número máximo de dezassete participantes. Foram principalmente estudantes e artistas de áreas artísticas, respectivamente, cinco estudantes do curso de Intérprete de Dança Contemporânea no Ballet Teatro Escola Profissional, e seis da Licenciatura em Artes Plásticas, um mestrado em Multimédia, um mestrado em Artes Visuais, Performativas e Audiovisuais na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e uma artista de Média Digital. Fiquei contentíssima por sete dxs participantes terem, antecipadamente, criado avatares no website do Second Life, instalado o Viewer e, no workshop, acederam ao lugar virtual do Senses Places pelos seus pcs.

Como planeado, Kikas Babenco contribuiu com intervenção no workshop durante a facilitação. Movimentou-se em silêncio com elementos virtuais vestíveis (do seu trabalho com aka Marmaduke Arado em Wearable Art), estabelecendo uma sintonia somática com a imersão física dos participantes, suscitando a sua empatia e interacção. Em vídeo excerto observamos Babenco movendo-se no espaço virtual com maçãs verdes e bolas vermelhas suspensas e acompanhando o seu movimento, visualizada nos ecrãs de tule suspensos na sala. Infelizmente, a interface webcam pessoa-imagem não funcionou, como é visível no ecrã circular inworld negro, indicando erro na reprodução do vídeo stream do workshop na sala física e, pelo qual, poderíamos observar-nos nesse ambiente virtual. Mas, felizmente, Babenco conseguiu acompanhar o stream pela sua máquina.

Vídeo excerto: projecções da Babenco, participantes, e sombra de Baillot com câmara durante o workshop, sala dos Maus Hábitos e ambiente virtual Senses Places @ Odyssey Simulator (SL®) © Baillot

 

Sucesso do Workshop parte #1 pelo envolvimento profundo dos participantes na experiência facilitada de improvisação somática-tecnológica. Curiosamente, todos os participantes, sem excepção, participaram activamente interagindo consigo mesmos, o espaço, entre si, com xs avatares projectadxs nos ecrãs suspensos, e com os próprios ecrãs. Desenvolvendo lentamente a imersão somática, a interacção física entre si (Contacto Improvisação) propagou-se visual e virtualmente, integrando avatares e espaço virtual, que por sua vez afetou os seus movimentos numa nova experiência interactiva e percepção expandida de realidade mista.

 

Março 29, 14h-16h WorkshopEnraizar para Virtualizar Parte #2

Canal YouTube Maus Hábitos

Video excerto: Workshop parte #2 com participantes e avatares: Butler2 Evelyn, Liz Solo/cavalo, Hanna80D, inesinesmm, EADMANN, Iptello4, outramaria, carinacorso, VCANTO; Senses Places@Vivarium2019 © Valverde

 

Esta segunda parte do workshop teve um pendor técnico-prático crítico de facilitação da activação da interface webcam pessoa-avatar a fim dxs participantes seguirem passo a passo. No entanto, apesar da rede wifi criada para este evento, devido ao peso do MUVE só foi possível operar quatro computadores ligados ao SL e conseguir abrir o browser e activar a interface. Quando consegui aceder ao link e estabelecer conexão webcam entre a minha imagem e o esqueleto da avatar sobreposto e voltar ao SL, ela não se movia de forma fluída, denotando lag. Posta esta dificuldade, decidi efectuar uma demonstração de cada passo para a sua activação e utilização posterior pelos participantes. Devido à acumulação de problemas com incompatibilidades de software também não foi possível partilhar HUDs e instruções com xs participantes com avatar presentes no SL. Mas, desejo que com esta sessão tenham ficado mais esclarecidxs sobre os procedimentos e desmitificado o que pensavam impossível ou difícil para avançar na experimentação criativa. Fiquei satisfeitíssima por algumas participantes terem interesse em iniciar projectos com estas plataformas e processos corporealizados de interagir e mostrei vontade em continuar disponível para apoiar. Enquanto sistema interactivo aberto, possibilita a cada artista escolher/criar as suas animações e coreografar/desenhar a interface à sua maneira, gerando a sua estética e poética (Valverde, 2016).

 

Março 29, 17h-18h Performance Participativa em Realidade Mista.

Canal YouTube Maus Hábitos

Dados os diversos problemas técnicos encontrados, por sugestão de Baillot, apresentei o que estava em questão nesta instância do projecto e quais os desafios à participação, apontando os aspectos técnicos que estavam a falhar. Como é possível observar nas fotos por João Pádua e vídeo stream, Junkaeko e Evelyn, Iptello4 e outrxs avatares encontram-se sentadxs ou paradxs no lugar virtual projectadas nos ecrãs da sala, estão ali connosco, como que expectantes, espelhando a situação dos visitantes. Mesmo assim, enquanto falava com Baillot e todos os presentes fui desafiada a mover-me com ela.

Vídeo animação: Performance Participativa em Realidade Mista Senses Places @Vivarium 2019 Fotos ©João Pádua. ©Valverde

Na hora também não concretizamos a colaboração por skype com xs músicxs em Salvador da Bahia, devido à fraca conexão wifi na UFBA. Fica o testemunho de Souza como, mesmo assim, foi produtivo para elxs.

Notas Pós-Vivarium
Desafio e risco são características do Senses Places, como proposta de abertura, colaboração e participação física-virtual através de envolvimento activo ampliado por sistemas tecnológicos. Sim, faltou a folha de sala incluir informação sobre as interfaces envolvidas e modo de interagir sugeridos em Score. Também não retomei facilitação conforme planeado, devido a diversos problemas técnicos do meu lado e de alguns colaboradores. Mas houve uma participação mais sossegada com avatares de diversxs participantes. A ideia é de proporcionar um ambiente para uma experiência imersiva interactiva, numa prática de entre conexões somáticas-virtuais. Considerando a dificuldade com a participação activa espontânea, independentemente dos problemas técnicos, após o evento decidi que iria criar um áudio a partir da facilitação do workshop para passar em voz off, juntamente com som/música ao vivo contribuindo para gerar o ambiente imersivo somático-tecnológico e, assim, convidar à participação. Ambiente adequado à indução por imersão sensorial somática, expandida pelos avatares por empatia cinestésica. Deixar-se levar pelo estado de dança como estado inter-sensorial somático-virtual. Voz off – facilitadora da descontracção imersiva com outros elementos interactivos sensíveis entre lugares físicos e virtuais, indutora de enraizamento, abertura, confiança, disponibilidade, sintonia. Foco no enraizamento físico para interactividade das sensações e percepções – sentido de Enraizar para Virtualizar.
O Score, planeado colocar em prática e partilhado no website do projecto, como sugestão para a participação, desta vez acabou por não ser tomado em conta. Todavia, a facilitação do workshop baseou-se em algumas situações, que propõem partir de focos somáticos experiência multidimensional sensório-perceptiva interioceptiva e proprioceptiva, progressivamente expandida pelos sentidos exterioceptivos em interactividade, telemática e virtual, num aprofundamento da amplitude físico-virtual das conexões intercorporeais.

 

Encontros em Realidade Mista Pós-Vivarium
Após o evento combinámos continuar a encontrar-nos no SL para concretizar aspectos fundamentais do projecto, como a interacção física-virtual pela interface telemática pessoa-imagem e derivadas (interface pessoa-avatar-imagem). Decidi também propor aos participantes do workshop uma sessão adicional para experimentarem estas possibilidades interactivas, mas não obtive resposta. Mesmo assim vou persistir e voltar ao convite.
Ao continuar com o registo do vídeo stream dos Maus Hábitos a posteriori do evento, tornou-se pertinente ver e interagir no ambiente físico-virtual via as duas interfaces, Evelyn e a minha imagem e dos participantes. Desde logo, testei se o SL realmente permitia visionar vídeo inworld nas janelas circulares de browser. Como esperava, a transmissão dos três registos de vídeo stream funcionou. E logo que experimentei interagir como avatar com a imagem de participantes, foi como outra dimensão da percepção da realidade mista e uma conexão somática bem especial. Com a Evelyn senti-me voltar à experiência imersiva dos participantes do workshop naquela sala e podia agora interagir com eles de uma maneira mediada imprevisível, dada a aleatoriedade da interface webcam pessoa-avatar e, por vezes, a simulação criava situações de verdadeira conexão. A interacção, nesse momento com o registo de uma acção do passado recente, colocada noutra realidade, tornou-a realidade mista também na sua simulação de hibridez presente-passado.

Vídeo excerto: Butler2 Evelyn interagindo com imagens de Valverde e participantes em registo de stream do Maus Hábitos, Workshop Enraizar para Virtualizar, Senses Places@Vivarium Festival, Odyssey Simulator © Valverde

 

Também nesta sessão consegui fazer um vídeo stream no Twitch.tv com os quatro ecrãs virtuais com registos dos três streams dos Maus Hábitos, a partir da esfera geodésica no espaço aéreo virtual do Odyssey, e a Evelyn interagiu com imagens minhas e dos participantes.

Com Solo numa sessão posterior desenvolvemos essas conexões interfaciais corporealizadas pessoa-avatar, avatar-avatar e pessoa-avatar-imagem. Partilho um vídeo a partir de images do SL com interacção por Solo, em que é como se entrasse e interagisse com a sala e comigo como extensão do lugar virtual.

Vídeo excerto: Liz Solo com Butler2 Evelyn e vídeo stream de Workshop com imagens de lugar físico com Valverde. Senses Places @ Vivarium Festival, Odyssey Simulator (SL) © Solo, Valverde

Nesta ocasião aprofundei a interacção entre Evelyn e participantes durante a improvisação somática no chão, num jogo com animações que emergiam em resposta ao meu movimento com a interface webcam pessoa-avatar. Mesmo com lag, foi inacreditável conseguir captar alguns momentos do envolvimento da Evelyn com imagem de participante simulando situação de toque como em contacto improvisação.

Vídeo excerto: Butler2 Evelyn e Liz Solo, video stream com imagens de participantes. Senses Places @ Vivarium Festival, Odyssey Simulator (SL) © Valverde

 

Notas finais

Em afinidade com a especulação filosófica de um novo paradigma interdisciplinar para inteligência artificial (IA) visionada por Ana Paiva et al. (Paiva, 2016, 2019), o campo das corporealidades pós-humanas, que Senses Places com dança soma-tec, em colaboração inter e transdisciplinar entrelaçando práticas e conhecimentos, não só sustentando como expandindo as capacidades humanas de uma forma peculiar, comprova e justifica a pertinência do projecto. Oferece, pois, uma contribuição essencial em que os humanos cooperam com máquinas inteligentes criadas para seu benefício e do planeta, só assim pensando possível avançar para a tão desejada evolução em harmonia e paz. Senses Places promove uma evolução empática multidimensional consciente e eticamente responsável, que persiste em tornar mais evidente o cerne da questão no momento crítico em que vivemos: a urgência de uma reconfiguração da noção de experiência humana como corporealidade pós-humana enraizada, virtualizada e principalmente entre-conectada com o seu habitat.

 

Referências

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NELSON, R. (editor); Practice as Research in the Art: Principles, Protocols, Pedagogies, Resistances. Palgrave Macmillan. 2013.
FOSTER, S. L.(editor); Corporealities: Dancing Knowledge, Culture and Power. Routledge. 1995.
HAYLES, K.; How we Became Posthuman: Virtual Bodies in Cybernetics, Literature and Informatics, Chicago: The University of Chicago Press. 1999.
MARTINS, J.; SANTOS, A. M.; COCHRANE, T. ; VALVERDE, I.; “A Webcam Interface for Somatic-Technological Dance Experiences”. ISEA2016. Proceedings of the 22nd International Symposium on Electronic Art. Hong Kong: Dr. Olli Tapio Leino. p. 319-322. 2016.
NELSON, T. H.; Way out of the box / Libertando-se da prisão da Internet. File Symposium2005, Festival Internacional de Linguagem Eletrônica. Tradução Paulo Migliacci. São Paulo, Brasil. pg. 16-22. 2005.
PAIVA, A.; Mascarenhas, S.; Petisca, S.; Correia, F.; Alves-Oliveira, P.; Towards more humane machines: creating emotional social robots. New Interdisciplinary Landscapes in Morality and Emotion. Sara Graça da Silva (editor). Routledge. pg. 125-139. 2018.
VALVERDE, I. C.; Dançando com motion capture: experimentações e deslumbramentos na expansão somático-tecnológica para corporealidades pós-humanas. REPERTÓRIO: TEATRO & DANÇA (ONLINE), v. 20, p. 250-284, 2017.1. ISSN 2175-8131.
VALVERDE, I. M. C.; Interfaces Dança-Tecnologia: um quadro teórico para a performance no domínio digital. 1ª edição. Lisboa: Gulbenkian. V. 1. 422p. 2010.
VALVERDE, I.; Senses Places: developing a somatic dance-technology approach. Publicação de autor, Research Gate. 2013.
VALVERDE, I.; COCHRANE, T.; “Weathering In/Com Tempo: An intervention towards embodying multimodal self-organizing environments,” Proceedings of the SLACTIONS 2009 International Conference – Life, imagination, and work using metaverse platforms. 2009.
WIENER, R.; The Human Use of Human Beings. Cybernetics and Society. Free Association Books. 1989.